A manhã de 30 de agosto começou cedo, as 06:30 café da manhã no hotel e as 07:00, com Soraya como nossa guia e Ronaldo ao volante. A energia da expedição estava no ar enquanto nos preparávamos para descobrir alguns dos tesouros mais espetaculares do Deserto do Atacama.


Primeira Parada: Lagoa Chaxa – O Santuário dos Flamingos
Após cerca de 40 minutos de van, chegamos ao nosso primeiro destino: a Lagoa Chaxa. Porém, descobrimos algo fascinante – a água que estávamos contemplando não era propriamente a Lagoa Chaxa, mas sim um canal com o nome peculiar de “Burro Morto”. Apesar do nome pouco atraente, o local é de uma beleza indescritível.

Este canal nasce misteriosamente no meio do deserto, alimentado por nascentes de água subterrânea, e percorre vários quilômetros até alcançar a verdadeira Lagoa Chaxa, que permanece fechada para conservação de espécies e estudos científicos.
Desde 1990, aproximadamente, foi estabelecida aqui a Reserva Nacional de Flamingos, um santuário que abriga diversas espécies e constitui a maioria dos sítios turísticos da região.

O Espetáculo dos Flamingos
O verdadeiro protagonista deste local é o flamingo, mas não qualquer flamingo. Aqui convivem três das seis espécies de flamingos existentes no mundo: o flamingo chileno, o flamingo andino e o flamingo de James. A diferenciação entre eles é uma ciência fascinante.

O segredo por trás da cor rosa destes magníficos pássaros reside na artêmia franciscana, um pequeno crustáceo de no máximo um centímetro que habita estas águas. Este pequeno “camarão do deserto” possui betacarotenos em seu corpo, e os flamingos, únicos pássaros cujo fígado consegue digerir essa substância, passam de 16 a 20 horas diárias se alimentando dele. A cor natural dos flamingos é branca, mas através desta alimentação rica em betacarotenos, suas plumas adquirem a tonalidade rosa característica.

O flamingo chileno é o mais fácil de identificar – quando fecha suas asas, fica completamente rosa, e possui um comportamento único: para se alimentar, precisa mover suas patas numa espécie de dança para trazer o alimento à superfície. Já os flamingos andino e de James são mais similares visualmente, diferenciando-se principalmente pelas cores de seus bicos e pernas.

Até às 09:00, permanecemos fotografando estes espetáculos da natureza, sempre mantendo o silêncio necessário para não perturbar as aves.






O uso de drones é proibido, pois o barulho afasta permanentemente os flamingos da região.
Outras Criaturas do Deserto
Além dos flamingos, o local abriga outras espécies fascinantes: o kaiti (pássaro branco de asas pretas com bico virado para cima), a gaivota andina (que muda a cor do rosto de preto para branco conforme seu período reprodutivo), e o chorlito de laguna. O principal predador da região é a raposa, existindo duas espécies no deserto: a raposa culpeu e a raposa chilla. Um habitante especial é a lagartixa de Fabiani, pequeno lagarto endêmico que se camufla cobrindo-se com sal da lagoa.

Segunda Parada: Socaire – A Vila nas Alturas
Às 10:00, após mais 40 minutos de viagem, chegamos a Socaire, uma pequena vila situada a impressionantes 3.250 metros acima do nível do mar. Esta comunidade de apenas 500 habitantes sobrevive principalmente da mineração de lítio e do turismo, representando a resistência humana em um dos ambientes mais desafiadores do planeta.



Café da Manhã com Vista Altiplânica
Em Socaire, fomos recebidos com um café da manhã que era uma verdadeira celebração da hospitalidade local: frutas frescas, pão caseiro, guacamole, bolo, biscoitos, presunto, queijo e chocolate quente. Este momento não era apenas uma refeição, mas uma pausa necessária para nos adaptarmos à altitude e nos prepararmos para os desafios que viriam.

Terceira Parada: Piedras Rojas – Desafio dos Elementos
Às 11h03, alcançamos um dos pontos mais dramáticos de nossa jornada: Piedras Rojas, situado a vertiginosos 3.975 metros de altitude. As condições eram extremas – ventos de até 80 km/h e temperatura de apenas 4 graus Celsius. A paisagem era impressionante: formações rochosas avermelhadas contrastando com topos de montanhas nevadas ao redor e, à frente das pedras, um lago congelado que completava o cenário surreal.









A previsão meteorológica indicava ventos de até 100 km/h para o dia, mas a realidade superou todas as expectativas, transformando nossa visita em uma verdadeira aventura contra os elementos.












Quarta Parada: Lagoas Altiplânicas – O Teto do Mundo
Às 12:50, atingimos os quase 4.300 metros de altitude nas Lagoas Altiplânicas, especificamente na Lagoa Miscanti. Neste ponto, estávamos literalmente tocando o céu, experimentando a sensação única de estar em um dos locais mais elevados acessíveis por turistas na América do Sul.









Almoço Protegido em Socaire
Nosso almoço estava programado novamente para Socaire, mas desta vez as condições climáticas ditaram uma mudança de planos. Em vez de almoçarmos ao ar livre como originalmente planejado, todos os grupos foram relocados para uma sala fechada. O motivo: ventos extremamente fortes carregavam areia pela atmosfera, criando uma névoa bege que tornava impossível enxergar o céu e reduzia drasticamente a visibilidade.
Registramos fotograficamente esta condição atmosférica única, onde o mundo ao nosso redor havia se transformado em tons monocromáticos da cor da areia do deserto.



Última Parada: Trópico de Capricórnio
Nossa jornada culminou com uma visita à placa demarcatória do Trópico de Capricórnio. Novamente, as condições climáticas adversas – ventos intensos e a persistente névoa de areia – limitaram nossa permanência no local. Conseguimos apenas algumas fotografias rápidas da placa histórica que marca esta importante linha imaginária do nosso planeta.


Reflexões da Jornada
Esta expedição pelo Atacama foi muito mais do que um simples passeio turístico. Foi uma imersão profunda em um dos ecossistemas mais únicos e desafiadores do planeta, onde a vida encontra formas extraordinárias de prosperar em condições extremas. Desde os delicados flamingos que transformam crustáceos microscópicos em plumagem rosa até as comunidades humanas que construíram suas vidas a altitudes que desafiam a fisiologia, cada momento foi uma lição sobre adaptação e resistência.
A combinação de altitude extrema, condições climáticas severas e paisagens de outro mundo criou uma experiência que permanecerá para sempre em nossas memórias.
O Deserto do Atacama nos ensinou que a beleza muitas vezes reside nos extremos, e que mesmo nas condições mais adversas, a vida encontra uma maneira não apenas de sobreviver, mas de florescer de forma espetacular.
Esta jornada foi realizada em 30 de agosto de 2025, proporcionando uma experiência autêntica e educativa pelas maravilhas do Deserto do Atacama.